Crianças e gestantes estão comendo química – e isso é mais perigoso do que se imagina

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 Fonte: Revista Crescer | Por Milene Saddi

Aditivos químicos presentes em alimentos ultraprocessados e embalagens plásticas estão na mira de grupo de pediatras norte-americanos, que também divulgou ações práticas para a população

Um grupo de pediatras norte-americanos divulgou no último mês uma declaração acompanhada de um relatório técnico alertando para o perigo da contaminação por químicos liberados em plásticos usados na cozinha, nas embalagens de alimentos e por aditivos usados pela indústria na produção de alimentos ultraprocessados.

Para o grupo, que inclui a Academia Americana de Pediatria, é urgente alertar às famílias e gestantes, para que se protejam com medidas práticas, e também ao governo dos Estados Unidos, para que haja mais rigor na fiscalização e regulação da lista de ingredientes e aditivos atualmente permitidos.

“Evidências científicas crescentes sugerem potenciais efeitos adversos sobre a saúde das crianças a partir de produtos químicos sintéticos usados como aditivos alimentares. A preocupação com esses aditivos aumentou nas últimas duas décadas, em parte devido a estudos que documentam cada vez mais a disrupção endócrina [desordem no funcionamento normal dos hormônios]”, diz o texto do relatório técnico.

“Os hormônios são sinalizadores do corpo. Os disruptores endócrinos são componentes que passam mensagens para o corpo e alteram o eixo endócrino normal – ou seja, alteram a função dos hormônios e podem levar a obesidade, diabetes e até câncer”,  explica a nutricionista Lenycia Neri, do Ambulatório do Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas. Ela ainda esclarece que a dose segura desses aditivos é medida segundo a quantidade de quilo de peso corporal. Porém, enquanto um indivíduo adulto tem 60 ou 70 quilos, um feto, bem menor, atinge a dosagem tóxica muito rapidamente. “No mais, seu sistema neuro-endócrino está em formação e qualquer disruptor pode trazer consequências para a vida inteira”, completa.

Para colocar em prática já

Corantes, aromatizantes, conservantes (como nitrato e nitrito, presentes em carnes), adesivos, corantes, revestimentos, papel, papelão, plástico e outros polímeros que podem contaminar os alimentos como parte da embalagem ou de equipamentos usados na fabricação estão na mira do grupo, que destaca os bisfenóis (utilizados no revestimento de latas metálicas para evitar a corrosão), ftalatos (usados em adesivos, lubrificantes e plastificantes durante o processo de fabricação), pesticidas não persistentes, perfluoroalquila (PFCs; usados em embalagens de papel impermeável) e perclorato (agente antiestático usado para embalagens plásticas em contato com alimentos secos com superfícies que não contenham gordura ou óleo e também presente como produto de degradação da água sanitária usada para limpar equipamentos de fabricação de alimentos).

“O bisfenol A, também conhecido pela sigla BPA, ajuda a tornar o plástico mais firme. Também é usado no interior de latas, para evitar que enferrujem”, diz o pediatra Ary Cardoso, chefe da Unidade de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (SP). “Foi comprovado que ele passa pela placenta. Não se sabe o quanto, mas ele interfere no sistema endócrino e pode provocar alteração de tireoide, de fígado, de peso e de reprodução”, explica.

Família reunida na mesa na hora do almoço (Foto: Shutterstock)

O relatório lista sete recomendações para que pediatras e o setor de saúde orientem a população. São elas:

1. Priorizar o consumo de frutas e vegetais frescos ou congelados, quando possível.
2. Evitar carnes processadas, especialmente o consumo materno durante a gravidez.
3. Evitar aquecer alimentos ou bebidas no micro-ondas (incluindo fórmulas infantis e leite humano ordenhado) em plástico, se possível.
4. Evitar colocar plásticos na máquina de lavar louça.
5. Usar alternativas ao plástico, como vidro ou aço inoxidável, quando possível.
6. Observar o código de reciclagem na parte inferior dos produtos para encontrar o tipo de plástico. Evitar plásticos com códigos de reciclagem 3 (ftalatos), 6 (estireno) e 7 (bisfenóis), a menos que os plásticos sejam rotulados como “biológicos” ou “verdes”, indicando que eles são feitos de milho e não contêm bisfenóis.
7. Incentivar a lavagem das mãos antes de manusear alimentos e/ou bebidas e lavar todas as frutas e verduras que não podem ser descascadas.

“O que os pediatras dizem é, afinal, exatamente aquilo que o Guia Alimentar para a População Brasileira prega: comer mais alimentos in natura e minimamente processados, evitar o consumo de ultraprocessados e comer comida caseira, feita na cozinha de casa”, completa Lenycia.

O Guia Alimentar para a População Brasileira é um documento oficial encomendado e distribuído pelo Ministério da Saúde que reúne diretrizes para orientar escolhas alimentares saudáveis. O mais recente foi publicado em 2014 e inovou a classificação dos alimentos. No lugar da pirâmide alimentar, o novo guia leva em conta o nível de processamento dos alimentos, que vai do mais saudável – o in natura (frutas, legumes e verduras) -, ao menos saudável, que é o ultraprocessado (alimentos formulados na fábrica com uso de aditivos químicos, como macarrão instantâneo, refrigerantes e bolachas recheadas), passando pelo minimamente processado (arroz, feijão, farinhas, massas secas, tomate pelado) e pelo processado (queijos, pães frescos, conservas, atum e sardinha em lata).

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