Mães de meninos têm mais tendência a desenvolver depressão pós-parto, diz estudo

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Além do sexo do bebê, pesquisadores descobriram relação entre estresse e complicações no parto com a depressão no puerpério. Entenda!

Os cientistas ainda estão tentando entender o que exatamente acontece com o corpo da mulher durante e após a gravidez para desvendar por completo a depressão pós-parto(DPP), e parece que estão chegando cada vez mais perto. Dois estudos recentes apresentaram novas descobertas sobre o assunto.

Novos fatores de risco: estresse e bebê menino

No primeiro deles, pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, submeteram fêmeas de ratos ao estresse durante a gestação. Assim como ocorre com as mulheres, as cobaias começaram a apresentar diminuição da atenção com os filhotes, sinais de depressão e ansiedade. Os cientistas perceberam que as fêmeas tinham inflamação em uma área do cérebro responsável pela regulação do humor e alterações no funcionamento das células imunológicas.

Segundo os cientistas, as descobertas trazem evidências de que o estresse é capaz de modificar o funcionamento de células do sistema imunológico que atuam no cérebro, conhecidas como “microglia”. “Foi especialmente interessante o fato de não encontrarmos evidências de aumento da inflamação no sangue, mas as observamos nesta área do cérebro, que é importante para a regulação do humor. Estamos realmente animados porque isso sugere que a inflamação no cérebro pode contribuir para a depressão pós-parto “, diz Kathryn Lenz, coautora do estudo. Para ela, isso pode ajudar a estabelecer um alvo para o tratamento, seja por meio de medicamentos ou técnicas como meditação, dieta e redução do estresse.

Já o segundo estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Kent, no Reino Unido, concluiu que as mulheres que deram à luz meninos tinham de 71 a 79% mais chances de desenvolver depressão pós-parto. Para isso, eles analisaram o histórico de 296 mulheres de populações contemporâneas de baixa fertilidade, coletadas por levantamento retrospectivo.

Mais apoio, menos riscos
Essa mesma pesquisa, publicada na revista britânica Social Science & Medicine, trouxe outra conclusão interessante. Embora a ansiedade e o estresse aumentem o risco de depressão, muitas mulheres tiveram uma redução na probabilidade após terem tido complicações no parto. Segundo os pesquisadores, provavelmente elas receberam uma atenção maior no pós-natal, o que sugere que as intervenções para apoiar as mulheres podem ser eficazes na prevenção do desenvolvimento de depressão pós-parto.

“A DPP é uma condição evitável e foi demonstrado que apoiar as mulheres em risco pode tornar o aparecimento do problema menos provável. A descoberta de que ter um menino ou um parto difícil aumenta o risco oferece aos profissionais de saúde duas maneiras novas e fáceis de identificar mulheres que se beneficiariam especialmente de ajuda adicional nas primeiras semanas e meses”, explica Sarah Johns, pesquisadora da Escola de Antropologia e Conservação da Universidade de Kent.

Para a psicóloga e vice-presidente da Abratef (Associação Brasileira de Terapia Familiar), Angela Baiocchi, os estudos são interessantes, mas é preciso ter cuidado. “Toda depressão, não só a pós-parto, tem fatores biológicos, psicológicos e sociais. Gravidez indesejada, morte do bebê ou de um familiar, criança prematura, com alguma deficiência ou problemas de saúde e até dificuldades financeiras: tudo é fator de risco. Às vezes, os cientistas fazem pesquisas em laboratórios com animais que são submetidos ao estresse, mas estresse é algo generalista. Várias questões podem levar os seres humanos ao estresse”, diz.

“Muitas vezes, a mulher chora e não sabe o motivo e não se cura apenas com remédios. Ela precisa ter também um tratamento psicológico. Cada depressão pode vir com uma razão”, argumenta. Segundo a terapeuta de família, enquanto algumas mulheres podem mostrar sinais de depressão durante a gestação, em outras, os sintomas só vão se desenvolver após o parto.

Segundo a psicóloga, entre os principais sintomas da depressão estão insônia, falta de apetite, choro frequente, isolamento social, baixa auto-estima, compulsão alimentar, nervosismo, incapacidade de cuidar do bebê, sentimento de vazio, angústia, esgotamento, fadiga e cansaço. “Ficar nervosa e chateada com a criança também é normal. Até mesmo o desejo de voltar rápido ao trabalho pode ser um sinal. O que a família e os cônjuges podem fazer? Dar apoio e prestar atenção a essas alterações”, orienta a psicóloga.

Cada fase da gestação
Segundo Carolina Curci, ginecologista e obstetra, cada fase da gestação vem acompanhada de grandes alterações. São mudanças físicas e psicológicas que podem desencadear uma série de fatores. E é preciso estar atento, pois os sinais de uma depressão podem aparecer até mesmo nas primeiras semanas de gravidez.

“No primeiro trimestre de gestação você vai ter uma ambivalência afetiva, você não sabe se deseja ou não. É igual amar e odiar alguém: são os opostos. Então, a mulher fica dividida. Os sentimentos, bastante intensos nessa fase, são uma euforia esfuziante, uma apreensão clara e muito forte. Até mesmo por isso, muitas delas tem náuseas e vômitos”, explica.

“A maioria – 95% das mulheres – começa a aceitar a gravidez a partir do segundo trimestre, que é quando começa a ocorrer a personificação do feto. Quando já se consegue ouvir com clareza o batimento cardiofetal e já realizou diversas ultrassonografias”, disse. Mas é nessa fase também que ocorre uma alteração do desempenho e apetite sexual. “O pai, inconscientemente, pode achar que o feto é um intruso, que fará com que a mulher o deixe em segundo plano. Inclusive, ele pode passar pelos mesmos sentimentos de um irmão quando a mãe engravida. Então, além da gestante, é importante avaliar o cônjuge, pois ele também podem apresentar alterações”, explicou Carolina.

No terceiro trimestre, o parto vai se aproximando. “Os sentimentos são de ansiedade, sonhos e fantasias. O parto é o momento mais imprevisível que existe, ele é desconhecido, a mulher nunca vai ter controle sobre o parto, então, é como se fosse um verdadeiro salto no escuro”, finalizou.

Tratamento é indispensável
A depressão deve ser tratada, pois as consequências podem se estender a toda família. “A depressão não prejudica só a mãe. Geralmente, ela transfere esses sentimentos para a criança, que pode desenvolver uma instabilidade emocional e psicológica. Ela não consegue acalmar e dar suporte ao bebê. Por isso, provavelmente a criança terá problemas no desenvolvimento. O grande desafio é alertar as mães para descobrir a questão e tratá-la rapidamente”, disse Angela.

Mas a terapeuta alerta: os parentes precisam formar uma rede de apoio para dar o suporte necessário. “É indispensável criar situações dentro da família onde alguém possa acolher esse bebê até a mãe melhorar”, explicou. “Quando não tratada adequadamente, a depressão volta lá na frente, podendo resultar em uma grande dificuldade de relacionamento com a criança ou ainda outros quadros de depressão. Ela não passa sozinha, tem que tratar”, finalizou.

Incidência da depressão pós-parto
Nos Estados Unidos, segundo a Universidade Estadual de Ohio, estima-se que ao menos meio milhão de mulheres sofrem, anualmente, com o problema. Já no Brasil, existem algumas estatísticas interessantes sobre depressão pós-parto. Os dados são da Scielo, Scientific Eletronic Library Online – um banco de dados bibliográfico digital.

– A depressão pós-parto é 2 vezes mais frequente nas mulheres;

– Adolescentes representam 23% do total de mulheres que desenvolvem depressão após o parto;

– 60% já fizeram um tratamento anterior;

– 21% tiveram sintomas na gestação de que poderiam estar desenvolvendo depressão;

– 50% dos quadros de depressão pós-parto não são diagnosticados;

– Somente 18% procuram por tratamento;

– 68% das gestantes que pararam com o tratamento tiveram recaída.

Fonte: Crescer online

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